Leonardo Da Vinci
Homenageando os esplendores florentinos dos Médicis, a magnificência milaneza dos Sforza, a grandeza generosa de dois reis da França, Leonardo da Vinci foi, sem dúvida, aquele homem universal que o Renascimento almejava, capaz de elaborar uma teoria geral do mundo, sólida,
poderosa, coerente.
O pintor-escritor se fez músico, engenheiro, arquiteto, anatomista, astrônomo, matemático, diretor de teatro, escritor, geólogo... Gênio visionário, ele teria inventado o avião, o submarino, a bicicleta, o violino; na música se adiantou admiravelmente, e chegou a cantar e tocar com tal destreza, que excedeu a todos os músicos de seu tempo; e para que não lhe faltasse habilidade alguma, com a mesma inspiração que teve para a pintura e a música, foi favorecido para a poesia. Em sua época, já era considerado uma lenda viva: “não existe maior artista que ele”, disse um de seus contemporâneos, “e o artista encobre um homem ainda mais admirável”.
Leonardo foi qualificado como um ser divino. Na verdade, havia algo de misteriosamente
perturbador na multiplicidade, na extensão quase anormal de seus talentos e de suas qualidades, posto que o autor da Gioconda já surpreendia a todos por seu charme, seu humor, sua força física e a beleza de seus traços.
Leonardo brilhou em sua época e desapareceu, deixando um vasto conjunto de obras das quais quase nenhuma, com exceção das pinturas, pôde ser plenamente apreciada senão séculos após
a sua morte, e longe da casa onde supostamente nasceu em Anchiano.
Citando a famosa declaração de Freud: “ele foi alguém que acordou cedo demais na escuridão, enquanto os outros continuavam a dormir”, o eminente estudioso Vinciano Ladislao Reti deu seqüência à imagem observando o número de manuscritos de Leonardo que desapareceram nessa escuridão. Só através da redescoberta recente de alguns deles o enigma de seu gênio está sendo esclarecido. E, no entanto, ele continua e continuará sendo
exatamente o que Reti o chama: o desconhecido Leonardo.
O nascimento de um Gênio
Leonardo nasceu em 15 de abril de 1452, em Anchiano, um lugarejo próximo à pequena cidade de Vinci; o nome de Leonardo da Vinci significa simplesmente “Leonardo de Vinci”. A cidade estava localizada a poucos quilômetros de Florença, e o pai de Leonardo, Ser Pietro, tornou-se um bem sucedido notário na cidade, onde acabou comprando uma casa. Dessa forma, é quase certo que Leonardo viveu parte de sua infância em Florença, que já se tornara a capital da cultura Européia, com uma população apaixonadamente dedicada às artes, ao dinheiro, às idéias, à diplomacia, à intriga,
ao luxo e ao aprendizado.
Leonardo era filho ilegítimo. Caterina, sua mãe, deve ter sido uma simples camponesa, pois somente Ser Piero é mencionado na certidão de nascimento de Leonardo. Embora o notário tenha se casado no mesmo ano, ele logo trouxe o menino para sua companhia. No tempo do Renascimento, ilegitimidade era coisa bastante comum, e pouco ou nenhum efeito acarretava como desvantagem social: meio século depois, um outro bastardo, César Bórgia, filho de um Papa, por pouco não se instalou permanentemente como Governador da maior parte da Itália central. Além disso, Leonardo deve ter-se beneficiado como fato de crescer como filho único: Piero se casou quatro vezes, não teve filhos legítimos antes de Leonardo estar na casa dos vinte anos. Numa época em que os filhos tinham certo valor material e emocional, seu casamento proporcionava dotes e cimentava as alianças familiares – ele provavelmente teve uma infância
segura e despreocupada.
Mais lendas do que fatos prevaleceram sobre a infância e a juventude de Leonardo. Conta-se, por exemplo, que um camponês que possuía um escudo pediu que pintasse nele uma divisa e o menino – ou talvez já fosse um rapaz – utilizou-se de lagartos, morcegos e animais semelhantes como modelos. O resultado foi tão perfeito que seu pai teve um choque de espanto quando o viu inesperadamente. Mas Ser Piero reagiu com a astúcia característica: deu ao camponês em substituição uma pintura tosca para seu escudo, levando o trabalho de Leonardo para Florença e vendendo-o pela considerável
soma de cem Ducados.
A Formação do Artista
Não se sabe quando e onde o jovem Leonardo fez seus estudos, embora forte tradição indique que ele tenha trabalhado para Andrea del Verrocchio quando era ainda criança. Verrocchio era o principal escultor florentino após a morte de Donattello em 1466 e dirigia próspera oficina na cidade. A mais antiga evidência das atividades artísticas de Leonardo data de1472, quando se registrou como membro da guilda de pintores, a companhia de São Lucas. Ele tinha então vinte anos e, se submeteu a um aprendizado formal, ficando pelo menos quatro anos ou mais, e assim é provável que Verocchio e seus alunos – entre os quais havia artistas que mais tarde se distinguiram, como Lorenzo di Credi e Perugino – tenham exercido profunda influência em Leonardo. Na oficina de Verrocchio Leonardo foi introduzido nos segredos técnicos do trabalho de fundição e outras tarefas metalúrgicas, aprendeu a preparar quadros e estátuas cuidadosamente, fazendo estudos nus e de modelos vestidos. Aprendeu a estudar plantas e animais curiosos para incluir em seus quadros e recebeu fundamentos básicos sobre a óptica da perspectiva e o uso das cores. No caso de qualquer outro rapaz talentoso, esse treinamento teria sido suficiente para fazer dele um respeitável artista, e muitos bons pintores saíram, de fato, da oficina de Verrocchio. Mas Leonardo era mais que um jovem talentoso; era acima de tudo possuidor de um gênio que até os dias de hoje nos causa admiração.
A oficina de Verrocchio deve ter sido um dos lugares mais ativos e movimentados
de Florença. O mestre e seus alunos não eram apenas pintores e escultores, mas artesãos em mármore, madeira e metal, sempre prontos para aceitar qualquer encomenda que lhes oferecessem; eles desenhavam e faziam armaduras, sinos de igreja, móveis de casamento entalhados e elaborados, joalheria e até mesmo máscaras mortuárias. Os artigos da oficina, envolvendo ferramentas especiais e planos e cálculos definidos, certamente despertavam muito mais o interesse de Leonardo do que as discussões banais dos intelectuais que se reuniam em volta de Lorenzo de Médici. Estes humanistas florentinos não eram indiferentes à pintura e à escultura do tipo simbólico-alegórico, porém davam mais importância a um gracioso estilo latino e uma elevada filosofia (neoplatonismo), nos quais poesia, mito e símbolo tinham valor maior que as realidades diárias. Leonardo parece ter desprezado tal tipo de cultura, até porque jamais foi seriamente considerado pelos Médici. Embora pudesse estudar e ler latim em qualquer tempo, ele devia achar que não valia a pena, até que, aos quarenta anos, sentiu que precisava ler os trabalhos de Arquimedes. O paradoxal resultado dessa lacuna é que, a despeito de seu profundo conhecimento das artes, anatomia, física, engenharia e inúmeros assuntos, Leonardo da Vinci era olhado por alguns de seus contemporâneos como um “iletrado” e,
por isso, inculto.
O Artista
Muitos dos escritos e obras de Leonardo se perderam com o tempo ou estão em péssimo estado de conservação como A Última Ceia, praticamente toda deteriorada por culpa do próprio Da Vinci, que mudou o modo como se pintavam murais em paredes (afrescos) usando ao invés disso têmpera para que a pintura ficasse mais perfeita já que demorava mais para secar. Aliás a busca pela perfeição além de ser mais uma prova da genialidade de Leonardo é o principal fato para ele ter feito poucas obras durante toda sua vida, muitas delas inacabadas; com muita freqüência deixava seus clientes insatisfeitos deixando de executar obras que lhe encomendavam e não cumprindo prazos. Afirmava que só a ele cabia a decisão de decidir quando uma obra estava terminada e se recusava a entregar enquanto não considerasse satisfeito com a mesma. No caso da A Última Ceia além do problema da deterioração, Da Vinci deixou o rosto de Cristo inacabado, somente em esboço; pintou todos os apóstolos primeiro e ao chegar em Cristo percebeu que havia pintado São João com tanta maestria que seria incapaz de dar a Cristo a impressão
merecida.
Para Leonardo o pintor devia sempre duvidar de suas obras, colocando seu
juízo acima de tudo. Assim, para ele, o bom pintor não precisa de muitas obras, mas sim de qualidade; a grandeza da produção
deveria ser suficiente.
Se hoje sabemos alguma coisa a respeito de tamanha genialidade Davinciana
se deve ao fato de seus alunos e admiradores terem preservado cuidadosamente
seus esboços e anotações, centenas e centenas de páginas com observações sobre livros que leu e rascunho para futuras obras que pretendia escrever. Quanto mais os estudiosos se aprofundam na obra de Da Vinci mais eles percebem e menos entendem a capacidade de um ser humano pesquisar e se destacar em tantas áreas
do conhecimento humano, contribuindo significativamente para todas elas.
Talvez uma das razões se deva ao fato de Leonardo não possuir uma formação acadêmica. Os conhecimA?entos acadêmicos não lhes interessavam; para ele a função do artista era a de explorar ao máximo o mundo em sua volta; Da Vinci jamais aceitava o que lia sem antes verificar com seus próprios olhos. Leonardo explorou a fundo o corpo humano dissecando cadáveres e estudando o crescimento do feto no ventre materno; todos esses estudos científicos do corpo aliado às suas observações científicas incessantes sobre as correntes marítimas, o vôo dos pássaros e insetos, a forma de pedras e nuvens, botânica, estudos de perspectiva e ótica, viriam ser a base de sua própria produção artística. Portanto, é provável que Leonardo não possuía ambições de ser considerado um cientista. Todos os seus estudos a respeito do mundo que o cercava seriam uma forma de conhecimento necessária
para o desenvolvimento de sua arte.
Leonardo ambicionava com seus estudos científicos tornar sua arte da pintura que tanto amava mais respeitada e não apenas um humilde ofício de simples artesãos. Acreditava que com tal base científica conseguiria o respeito que desejava para sua pintura, já que naquela época trabalhos manuais eram considerados menores. Como Leonardo afirmou “pintura é coisa mental”.
Para Leonardo a arte era inseparável da ciência, uma era aplicação prática da outra. Ao artista eram abertas duas vias que poderiam ser seguidas: a imitação da natureza ou a substituição da realidade por um ideal. O Humanismo para Leonardo devia estar sempre presente na vida do artista; o mesmo devia ser um pesquisador com total liberdade de criação, acrescentando à natureza a humanidade de sua imaginação. A pintura mais digna de elogio seria aquela que mais se aproximasse da coisa imitada, e tal perfeição só seria atingida através de muita prática,
sempre calcada na teoria.
Leonardo valorizou o caráter ilusionista da pintura, procurando trazer à terceira dimensão um espaço de duas dimensões (volume). Para Leonardo o máximo da pintura era o volume. Da Vinci enxergava um problema na pintura dos antigos que era a “dureza” A?demasiada nas figuras, em que os contornos eram reforçados, o desenho era evidente; o pintor deveria deixar algo ao espectador para advinhar. Para isso pregava que os pintores deveriam pintar de forma tal que os contornos permanecessem um pouco indefinidos, como se estivessem desaparecendo em uma sombra, dessa forma fazendo com que a rigidez fosse evitada. A essa nova forma de pintar, que teve sua primeira aparição na Monalisa de Leonardo e que foi um marco para a arte, dá-se o nome de sfumato, em que as cores são pintadas de forma a fundir-se umas nas outras deixando sempre algo para o espectador completar. Apesar de ser o primeiro a utilizar a técnica do sfumato, Leonardo Da Vinci pregava que até mesmo o belo deveria ser sacrificado, no momento em que passasse a interferir na clareza da obra, ou seja, até mesmo o sfumato não poderia interferir na clareza de seus quadros. As luzes, sombras e cores existiam na pintura em prol da forma e não independentes como vai ocorrer no Barroco em que a clareza dá lugar a obscuridade e a forma já não é o
elemento principal de um quadro.
O Gênio Incompreendido
Leonardo era encarado por seus contemporâneos como um ser estranho e misterioso e até hoje ele o é. O certo é que todos queriam usufruir da inteligência de Da Vinci; A nobreza e os militares queriam usar os conhecimentos de Leonardo sobre engenharia para construir fortificações, canais e novas armas que aumentassem o seu poderio bélico.
Toda essa capacidade em diversas áreas do conhecimento não podiam ser totalmente reveladas, correndo Leonardo o risco de ter suas idéias consideradas heréticas.
Talvez por isso escrevesse da direita para esquerda, fazendo com que suas
imagens só pudessem ser lidas mediante um espelho. O que mais nos intriga é como um homem há quinhentos anos atrás pudesse desenvolver teorias em tantas áreas. Na realidade seus estudos serviam como base para sua arte mas também para satisfazer sua insaciável curiosidade e que tão logo solucionado um questionamento, abandonava-o já que existiam muitos mistérios
no mundo em sua volta a serem desvendados.
Durante toda vida Leonardo deslocou-se de Florença para Milão e vice-versa, depois para Roma para servir o aventureiro César Bórgia, e finalmente para França, para onde foi passar sua velhice e se afastar do ódio injustificável de outro gênio, mais novo, Miguel Ângelo Buonarroti e onde morreu nos braços do Rei Francisco I, em 1519, admirado mas também
incompreendido por todos.
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